quarta-feira, 9 de junho de 2010

Eder Chiodetto

conversa com Eder Chiodetto
publicado em fotografia por cris alcântara em 24 dez 2008 | 15 comentários

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Manoel de Barros. Foto: Eder Chiodetto

Chiodetto é autor do livro "O lugar do escritor", no qual fotografa o local de trabalho de 36 importantes escritores brasileiros, revelando, portanto, a intimidade onde são criados seus imaginários. O fotógrafo afirma ter encontrado na fotografia uma maior liberdade estilística. Entretanto, seu trabalho sempre manteve um paralelo entre palavra e imagem. Em resposta a uma das questões propostas, Chiodetto explicou que as duas linguagens, literatura e fotografia, podem lhe dar um poder de fogo, de forma intensa, mas particularizadas ao tema. Por isso, decidiu explorar, a partir da lente da câmera, o espaço físico e real onde diferentes escritores conduzem seus imaginários, universo este considerado por ele como invisível e prolixo.

Espectador contemporâneo, Eder Chiodetto defende a idéia de que nossa percepção passa por um momento de transformação e de redefinição, para assim, melhor compreender o mundo que está por vir. E afirma ainda que o homem contemporâneo seja o criador e ao mesmo tempo a vítima do que ele chama de uma crescente cegueira, e que a atual crise geral do olhar possa estar na raiz de um passo evolutivo do homem. Segundo Chiodetto, as formas de obtenção e circulação das imagens neste momento passam por uma revolução. A partir disto, percebemos que a relação do fotógrafo com tais mudanças não é pessimista ou catastrófica. Em uma das respostas à entrevista, Chiodetto explica que em seu livro as imagens estão relacionadas à descoberta e ao instante:

A espera esteve na gênese desta coleção de imagens. Geralmente eu marcava as entrevistas com os escritores pedindo um tempo grande, uma tarde inteira, um dia inteiro...O meu tempo de espera era o do relaxamento da caça. Na verdade era fazer com que a caça acreditasse que aquilo não se tratava de uma caçada. O que era uma sensação falsa estimulada por mim, pois sempre tive a consciência de que era um ávido caçador faminto. (Chiodetto, entrevista concedida em Agosto de 2004).

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Jorge amado. Foto: Eder Chiodetto

O fotógrafo conta que, enquanto produzia as fotos, buscava um estado de suspensão compulsório vivido por aqueles criadores. Conclui-se, portanto, que Chiodetto não conduzia seu olhar ao óbvio, mas impunha uma leitura que ia além do referencial, caracterizando assim seu processo imaginário. Em O lugar do escritor é curioso notar o isolamento como condição primária para que aqueles escritores invadam – ou deixem ser invadidos – um mundo de idéias, um pomar da imaginação, onde basta colher a personagem ou a cidade em que lhe apetece contar uma história. No entanto, alguns destes escritores permitem a companhia concreta da rua, do espaço externo no ambiente de elaboração literária.

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Ferreira Gullar. Foto: Eder Chiodetto

No caso do poeta Ferreira Gullar, esta intromissão em seu escritório é um galho que descobre o vão deixado pela janela aberta. Tal situação é captada pelo olhar de Chiodetto que indaga ao poeta sobre o fato:
Esta árvore foi crescendo para o lado de cá e terminou fechando a janela. De vez em quando vem os funcionários da prefeitura e cortam, mas felizmente eles pararam de cortar. Eu deixo aí. Tinha até um galho que estava entrando por aqui. É minha companheira de trabalho. Ela e o gato que senta no meu colo quando estou escrevendo. (Ferreira Gullar in “O lugar do escritor”, p. 30).

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Ariano Suassuna. Foto: Eder Chiodetto

Estes são alguns dos pormenores revelados pelo olhar exploratório de Chiodetto através de sua câmera fotográfica. Conclui-se a partir deles que a série de fotografias de "O lugar do escritor" foram feitas por um observador de paisagem que se desloca da rua para o interior das casas, mas que mantém as mesmas características do olhar indagador de uma flânerie urbana. Em uma de suas respostas, o fotógrafo revela ter se perguntado constantemente por qual seria a maneira com que aqueles escritores lidavam com seus mundos imaginários. Sua pergunta inicial era saber em que lugar um prosador escreve sua ficção ou um poeta seu poema. Tais questionamentos fazem com que tudo seja visto como pela primeira vez. As imagens que pareciam ter sido banalizadas pelo imediatismo e falta de tempo contemporâneos, são resgatadas por este olhar que irá transformá-las a partir do imaginário conduzido pela curiosidade e contemplação.

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Adélia Prado. Foto: Eder Chiodetto

Eder Chiodetto, como fotógrafo, produz um imaginário relacionado à sua observação e eterniza imagens que ultrapassarão nossa contemporaneidade, feitas a partir do instante e de um olhar indagador que observa como pela primeira vez. Tal compreensão poderia também ter sido feita através do trabalho de outros artistas, de outras áreas e linguagens mas que tivessem como pertinente em suas poéticas o tema do olhar, pois está claro que é papel do homem contemporâneo compreender, adaptar e aperfeiçoar suas formas de observar, para que assim haja não um empobrecimento do imaginário mas uma revolução.

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